A ordem do dia era seu relacionamento com a mãe. O aniversário dela estava chegando e, com isso, uma série de questionamentos afloravam sob ele. Para um homem como ele, aniversários eram eventos enfadonhos de se comemorar. Desde que adolesceu, cogitava em perder o costume de celebrar com bolo e velas e, entre os amigos, frequentar apenas os aniversários daqueles mais chegados. Os da velha guarda, como gostava de dizer.

Aniversários são sempre mais especiais quando é o quinto, o décimo-quinto, o vigésimo-quinto que se é convidado. O peso do convite é cumulativo, por bem ou por mal. E um aniversário da mãe, ah. Esse tem peso enorme.

O aniversário de uma mãe é um momento curioso para o filho. Aniversários, de uma forma geral, são momentos que marcam a passagem do tempo, isso é óbvio, autoevidente. Mas o que é, para um filho, a lembrança do tempo de sua mãe? Para o menino, é um momento de conhecê-la. Para além de mãe, há também ali uma mulher. Que será celebrada, sem que ninguém o pergunte sobre seus ciúmes, por quem é.

Muito além de sua mãe, ali se comemora a mulher, a amiga, a colega, a irmã, a companheira, todas as suas versões, inclusive as que ele não conhece. E assim, aniversários de mãe são especialmente enfadonhos para o menino.

Mas este menino já se dizia homem. E, por isso, não vinha reclamar o seu posto de destaque na vida da mãe. Já reflexivo sobre a passagem de seu próprio tempo, percebia também o gosto amargo da passagem do tempo daquela mulher, que são tantas. Ainda distantes da maturidade, os dois já não eram mais os mesmos, embora, em tantos sentidos, ainda fossem.

A tenra infância já não é tão eterna assim. Entre boas e más fases, eles ainda galgam em busca de se conhecer em suas totalidades. O tempo, esse poder transformador, é quem opera a vida. Apenas por meio dele dois seres que já foram um podem se tornar tão distantes e, ainda assim, os mesmos.

Inevitável, o tempo deixa como legado o cansaço, os sulcos no rosto e todas as marcas tão carregadas de sabedoria. E isso assusta o menino, que, estranho ao tempo, tem medo de cicatrizes. O homem, no entanto, já um pouco vivido, gasto, sabe que a calma vem não da urgência do pavio, mas do celebrar do fogo.

Aniversário de mãe é sempre prato cheio. É uma porção quase perfeita da sua comida favorita. Sempre falta um cadim. Sempre dá pra repetir.

Feliz aniversário mãe, te amo.

Gabriel Fabri Avatar

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