Há um tempo tenho meditado, involuntariamente, sobre textos longos. Até hoje eu nunca terminei de escrever um capítulo. Comecei alguns. Alguns até que considero muito bons. Mesmo que ainda não possa os considerar por completo. Eles padecem da falta dessa condição. Completude.
Nesse mesmo sentido penso sobre como tenho procurado reduzir ao máximo o número de palavras que preciso para comunicar uma ideia. “Escrever é a arte de cortar palavras”. Frase renegada por Drummond mas que é eternamente atribuída a ele. Talvez seja isso. Drummond cortou até mesmo essas palavras. Sendo o escritor que é, não precisaria argumentar a respeito de forma tão vulgar. Mesmo que breve. A brevidade é um fetiche. Não há ação no mundo que escape do desejo da brevidade. Nem mesmo o sexo. Existe fetiche maior do que o orgasmo alcançado com um simples olhar? Pois então. A brevidade é a ação em resumo de si mesma. A soma das partes a partir do denominador comum. É tudo aquilo que não é redundância.
Me vejo absorvido por um desejo de brevidade profundo. Procuro me abreviar em quase tudo que posso, ou consigo me forçar a. Mas decerto não me é um movimento natural. Sou por natureza um falastrão. Faço parte de uma categoria de ser falante que usa da verborragia como ferramenta essencial diante da falta de tempo. A brevidade é contrária ao ganhar tempo. Talvez seja sua antítese. Pense comigo. Não seria a abreviação o uso mais profundo do tempo? O uso total do instante. É tornar-se próprio aos segundos que lhe foram concedidos por ordem cósmica. A verborragia, por outro lado, é transbordo. Não por falta de consciência do tamanho do Verborrata , mas por tentar esconder-se atrás de tudo que seja distraente. Disforme e atraente. Palavras amassadas até que seja possível entender um qualquer coisa daquele troço.
Mergulho assim num oceano resoluto em totalidades. E quando especifíco a água de minhas lágrimas. Assim faço pela completude de significados que elas contêm. O choro é sempre tão distante de entendimentos. O choro é sempre breve. Dura exatamente o tanto que deve. Nem mesmo ao choroso cabe definir o tamanho de seu choro. É o primeiro exercício de brevidade dado a todo recém-nascido. Que ao se tornar separado da mãe, rapidamente é confrontado com a realidade de que a dor de estar vivo há de se resumir em algum momento. O choro há de cessar. E ele há de viver ainda assim.
O esgotamento é também parte do ser breve. É desse momento que tenho mais pavor. O esgotar. Esgotar sim, é antítese do troço. Esgotar é tudo menos o acúmulo. O esgoto é o fim de todas as coisas. É sim, disforme, fedorento, medonho talvez. Esgotar é o ato de extrair a última gota. E o esgoto é para onde vão todas as coisas que já não têm mais nenhuma gota a ser extraída. E o que quero eu? Trazendo o esgoto para minha vida. Bem, isso não sei ao certo. Me parece uma boa resposta para meu acúmulo já sem propósito de palavras. Um destino para todo o tempo que venho ganhando por aí. Esgotar é um exercício muito complicado. Morrer é mais fácil do que esgotar. Esgotar-se de um livro. Esgotar-se da casa de seus pais. Esgotar-se de um amigo. Esgotar-se de um amor. Esgotar-se de seus avós. Existem esgotos que não ousamos a travessia. Até que nos esgote a própria existência.
Medito muito sobre textos longos. Até hoje não me esgotei desses meus capítulos. Visto que, ao menos em papel (ou pixel), eles ainda haverão de ser esgotados uma última vez. Acho que é isso. Quero fazer vinho de mim.

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