Hoje fiquei sabendo que meu grande amigo vai se mudar. Não de cidade, apenas de bairro. E não de imediato — restam alguns meses até sua despedida dessas redondezas.
Não deixa de ser difícil refletir sobre como os dias se passarão no São Pedro agora que sou um dos últimos dos grandes amigos que fiz — ainda por aqui. Passei pelo processo de mudar de casa há alguns anos. Uma mudança de menos de 200 números (importante dizer): dos 1029 passei para o 812 de hoje. Mesmo assim, sinto saudade dos 200 números que perdi, do meu quarto de onde eu vigiava a rua, da varanda nos fundos que era escape nos dias ruins, da sala com sofá de couro que grudava as costas nos dias quentes de verão e até mesmo das ervas daninhas que insistiam no canteiro da janela — poupadas quando minha mãe tinha pena de arrancar. E talvez, principalmente, da grande mesa de madeira onde compartilhávamos sessões de RPG e lanches da tarde bem feitos com os bons amigos do São Pedro.
Penso sobre como a proximidade conveniente de onde morávamos sempre foi boa desculpa para permitir os encontros que sempre foram tão caros. Tardes de risadas que pareciam tão preciosas. Jamais alguém ali diria que, na semana seguinte, seria igual. Tudo parecia tão raro, mesmo que em abundância.
Os caminhos da vida assim são chamados porque repousam verbos sobre eles. Não se pode permanecer estático, substantivo, diante da vida que, do contrário, nos aconteceria alheia. Tudo muda, mas mesmo assim não deixamos de carregar apegos pelo caminho. E, como um nome próprio, penso que os endereços fazem parte da gente. Endereços são também assinaturas que marcam os cantos das memórias que escrevemos. Seja a vez que caí da árvore e propriamente fudi minha coluna, ou as vezes que eu, você e Chamone deitamos na quadra procurando estrelas no céu — enquanto confessamos secretamente quem estávamos nos tornando na nossa adolescência tão especial, mesmo quando ordinariamente confusa.
É doído me despedir dessa sua casa, meu amigo Eduardo, porque mais do que me despedir do piso de mármore gelado (onde nunca me acostumei a andar descalço, como sempre faço na minha), ou do espelho gigante onde imprimi tantas caretas e olhares cúmplices em travessura com você e nossos amigos, eu também vou me despedindo de um tempo importante da nossa vida. Dos tempos em que nos conhecemos no colégio, de quando você trocou de escola e ameaçamos nos distanciar pela primeira vez, e de todas as vezes que procurei refúgio sob a forte alegação de que precisava jogar um “Broforce“.
A bem da verdade, é que eu sempre procurei na Rua Lavras 424 um lugar de pertencimento — sem pedágio de entrada. Por mais que, mesmo após 12 anos de visitação assídua, o porteiro ainda não intuísse que eu estava subindo para o 501. Eu, com certeza, sempre me senti bem-vindo ali. E não posso dizer nada além de obrigado: a você, à sua família e à Rua Lavras 424.
Com o tempo, vai-se criar espaço entre as histórias que vivemos ali — assim como já há tanto espaço nos lugares que deixamos para trás. E, por mais que seja plenamente sabido que é nesse espaço que se construirão novas aventuras, quero aqui celebrar todos os cantos onde já não cabemos mais. Para crescer, há de se trocar as flores de vaso. Mesmo que isso custe ao jardim.
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